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quarta-feira, abril 11, 2012

O aproveitamento do areal da Figueira
… uma visão e um programa para 50 anos, a começar desde já!...

( Publicado no semanário “O Figueirense” de 21.Outubro.2011)


Que me lembre, vai para mais de trinta anos que, de vez em quando, vem à baila o que fazer

ao areal da praia. Ao tempo, usava-se o termo “aproveitamento”, mais prosaico, porém mais apropriado do que as modernices das designações de “requalificação” ou “ordenamento”.
Em 1981, a equipa do Arqº Alberto Pessoa, com quem a Câmara Municipal mantinha uma permanente e frutuosa avença de assistência, elaborou um primeiro estudo. Mais não era do que um sintético documento orientador geral de futuras acções, apresentado na forma de duas a três plantas cobrindo todo o espaço, então menos extenso do que o actual. Por isso se designava pelo também singelo nome de “Programa-base”. Chegou a merecer apreciação em Assembleia Municipal, mas depois veio a “morrer na praia”.
Oito anos depois, foi a vez da Sociedade Figueira Praia encomendar um plano à equipa dos arquitectos Pereira da Silva e Alberto Pessoa-filho. Ignoro qual foi o destino da encomenda ou do plano que porventura haja sido elaborado.
Decorreram mais três a quatro anos e, por iniciativa da Câmara Municipal de então, surgiu um “plano geral do areal da praia”, desta feita da autoria do GITAP, que penso que seria um gabinete de consultores e especialistas.
Logo nos primeiros meses do seu glorioso mandato, Santana Lopes decidiu-se pela implantação do conhecido Oásis, junto à Ponte do Galante. Na sua versão inicial, o projecto previa árvores, esplanadas, palcos, campos desportivos, um lago de água doce. Incluía

também um mirabolante circuito de um pequeno comboio (imagino que sobre carris…) que ia
pela parte poente do areal, desde o “parque das gaivotas” até junto ao prédio J. Pimenta, em Buarcos, voltando para sul junto ao paredão da marginal.
Reconheço ter então achado o Oásis uma boa ideia. Todavia, encarei-o sobretudo como uma espécie de protótipo ou de amostra do que deveria e poderia ser feito, gradualmente e em sistemático esforço, em todo o areal. Não seria bem essa a ideia de Santana Lopes, mais
interessado em rapidamente exibir obra, ainda que efémera, que tivesse efeitos mais imediatos na sua imagem de autarca, já com vista a outros mais altos voos.
Por isso, as palmeiras com que decorou o Oásis foram para lá transplantadas muito crescidas. Hoje encontram-se esqueléticas e moribundas, em evidente contraste com as que se levantam, bem sólidas, na marginal de Buarcos. Estas cresceram a partir de pequenas e juvenis

palmeiras de viveiro, com um a dois palmos de altura, ali plantadas no início dos anos oitenta.

A CMFF lançou agora um concurso de ideias, a que chama “concurso público de concepção”, destinadas a orientar uma solução urbanística para o vastíssimo areal da Figueira, a que

chama“ requalificação”. Vem acompanhado por uma vasta lista de requisitos quanto às “tipologias de intervenção”, sob a forma de belos e sugestivos termos do jargão da arte.
Costuma ser assim. Quando alguém está falido e sem dinheiro ( por parte deste ter sido ou estar a ser desviado para alimentar os cantos das cigarras…) e não pode, por isso, fazer obra concreta e tangível, faz planos. E encomenda estudos que, obviamente, também custam
dinheiro. Enquanto vai também, entretanto, descerrando estátuas, realizando homenagens, celebrando datas e depondo ramos de flores.

Lendo e ouvindo algumas declarações, revelações e promessas dos responsáveis da Câmara Municipal da Figueira sobre novas e grandiosas obras, tal como a prometida “requalificação e reordenamento” dos espaços da marginal oceânica, ou de uma espectacular ciclovia do Mondego, fica-me a impressão de que esses responsáveis políticos ainda não adquiriram perfeita consciência do cenário financeiro aterrador por que, nos próximos anos, vão passar as autarquias locais, nem o calvário de sacrifícios que nos espera, a todos nós, figueirenses e portugueses. Parecem continuar distraídos, convencidos de que a crise se ultrapassa dentro de um par de anos; prazo findo o qual, pensam, voltarão a jorrar fundos e mundos da cornucópia com que até há pouco pensaram poder alimentar os seus devaneios e a sua crença de vivermos num país rico.

Não vai ser assim. Iremos passar, por muitos anos de carências, de limites neste momento ainda não imagináveis. A procissão da crise financeira, económica e social, vai ainda no adro. Nos tempos de emergência social que aí vêem, o “planeamento estratégico “ do Município deverá ter em vista, fundamentalmente, este importante objectivo: aguentar e sobreviver.

Daquele “concurso público de concepção”, palpita-me que irão surgir umas quantas propostas mais ou menos mirabolantes, descritas em espessos relatórios com muitas bolinhas, setinhas, diagnósticos, linhas de força, avaliações sociológicas, enquadramentos histórico-paisagísticos

e outros termos do jargão da arte do “planeamento estratégico”. Do trabalho de imaginosos e criativos arquitectos (muitos deles porventura sonhando com um prémio Pritzker…) e de perspicazes especialistas de planeamento, tudo espremido, ficarão umas duas dúzias de plantas e alçados, bem como um grande número de espectaculares desenhos e de sedutoras imagens virtuais elaboradas por modernas aplicações informáticas, sugerindo e descrevendo
a distribuição, pelo inóspito areal da praia, de variados equipamentos e inúmeras estruturas.

Por falta de dinheiro, esse tão importante e escasso bem, uma hipotética concretização desses projectos, se alguma viabilidade tiverem, fica adiada para longínquas calendas.

Entretanto, todo aquele material gráfico irá parar a uma pasta em cartão, que irá jazer algures, numa qualquer prateleira do sobrelotado arquivo municipal. E não será por um ou dois anos; mas por um ou dois lustros, pelo menos.

Tenho a opinião de que o areal não deverá nem poderá ser “aproveitado” ou, se se quiser, “requalificado”, por acção de uma intervenção planeada a régua e esquadro, através de

estudos detalhados, de vistosos projectos, ou de relatórios delirantes e prolixos de “planeamentos estratégicos”. Pelo contrário, entendo ser preferível uma estratégia de
pequenos passos dados através de modestos planos e projectos concretos e exequíveis.
Tendo os pés bem assentes na terra, e a consciência de que não haverá dinheiro para mais.

Desde logo, parece ser uma evidência consensual que se imporá estender para a Avenida 25 de Abril o perfil da Avenida do Brasil desde Buarcos até à Ponte do Galante; ou seja, com duas largas faixas de rodagem separadas por um calçadão mais ou menos com a torre do relógio no meio.
E um primeiro passo poderia ser dado.
Porque não preparar desde já o projecto desse alargamento ?. Não apenas um estudo prévio, ou um ante projecto; mas um projecto mesmo, com cotas, levantamento topográficos, cálculos de engenharia, de volumes e movimentos de aterros, de estimativas de custos, inclusive.

A missão poderia ser levada a cabo por uma equipa de técnicos dos quadros da autarquia, que os tem qualificados. Usava-se a prata da casa, ficava a custo zero, ou quase. Era talvez para meter na gaveta, por ora, a aguardar eventualmente alguma pequenina folga orçamental e algum fundo comunitário disponível. Mas ficava.

Ainda mesmo antes de definido o alinhamento do novo paredão a construir para duplicar o

perfil da Avenida 25 de Abril, era altura de se iniciar e levar a cabo, gradualmente, um processo de arborização (florestação, se for preferível o termo) de uma faixa do areal até mais a poente, por exemplo, a uns 100 metros da linha da maré viva. Nessa faixa, seriam plantadas, com plantas criadas em viveiro, espécies arbóreas e arbustos adaptáveis a solos arenosos e a condições climatéricas de vento e ar marítimo. O pinheiro bravo é uma delas, como se pode observar nas matas a norte e a sul da Figueira. No actual Oásis, além de muitos desses arbustos, pode também ver-se uma dezena de pinheiros, plantados há cerca de 7-8 anos, e já com um porte de metro a metro e meio de altura Existem, hoje em dia, técnicas de arborização/florestação assistida (com rega gota a gota, por exemplo) capazes de produzir efeitos e obra, se não a médio, pelo menos a longo prazo.

Para tal, seria necessário começar pelo desenvolvimento gradual de um coberto vegetal

(natural e não carente de rega…) que permita estabilizar as areias, e reter a água doce nas camadas superficiais do solo arenoso, por redução da sua permeabilidade. Esta redução
poderia conseguir-se misturando as camadas superficiais do solo arenoso com outros materiais inertes ou orgânicos (resíduos de jardinagem, por exemplo). As fábricas de celulose produzem resíduos não perigosos que poderiam ser usados para o efeito, tais como serradura, restos de casca de eucalipto, cinzas de caldeiras de biomassa, resíduos de cal. O seu potencial fertilizante é insignificante, mas no caso o que interessa será, repete-se, reduzir a permeabilidade do solo e reter a sua humidade. À medida que esse coberto fosse crescendo, mais água seria retida, mas espécies vegetais iriam germinar, mais coberto vegetal se desenvolveria.
Em jeito de experiência, e numa primeira fase, o esforço de criação de coberto vegetal e de arborização poderia realizar-se com a plantação de umas quantas dezenas de pinheiros, num talhão rectangular, tal como o delimitado pelas passadeiras de madeira que cruzam o areal, em frente do Grande Hotel. Poderia ser ponderada uma parceria com os Serviços Florestais.

Uma estratégia como a proposta, colocada em prática de forma realista, gradual e consistente, será porventura para produzir resultados visíveis daqui a uns 50 ou 60 anos. Tempo mais ou
menos igual ao que levo de vida na Figueira, onde cheguei, migrante do Alto-Minho, e

encontrei um areal já extenso, bem diferente da imagem que mantinha no meu imaginário
desde a minha primeira visita, ainda criança, nos idos da década de cinquenta.
A visão a longo prazo, será a da Figueira passar a ser a única cidade portuguesa com um autêntico pulmão verde entre o seu tecido urbano e a sua praia junto ao mar.

É pena eu já cá não estar, para poder disfrutar da paisagem. Porque entretanto, emigrarei para
outros paraísos.



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